quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Clichês



Não pense, não controle, faça. Essas eram as palavras que Luíza repetia todos os dias em frente ao espelho, mas também eram as únicas que fugiam à sua memória quando ela avistava Fred. Aqueles ofuscantes olhos azuis, o corpo minuciosamente esculpido, os braços fortes e a barba por fazer. Sim, aquele era o Fred, o culpado por seus devaneios e noites insones. Se Luíza conseguisse ao menos lhe encarar, se pudesse esquecer seus medos, se contasse a Fred o que dizia à sua imagem refletida talvez ele finalmente fosse seu por completo. Mas Fred não a conhecia, nem sequer sabia seu nome. Luíza era linda, tinha um sorriso encantador, os olhos cor de mel eram doces e castos, e ainda assim nada lhe dava a segurança de que era boa a bastante. Um dia, soube da mudança de Fred e teve a certeza de que não haveriam mais chances. Foi até a estação na esperança de vê-lo pela última vez. O encontrou. Estava sentado ao lado da janela do terceiro vagão. As mãos de Luíza começaram a suar, ficaram geladas. Ela sabia o que tinha que fazer. Era a sua última chance. Luíza entrou desesperada no trem, mas para o descompasso do seu inválido coração, uma loira voluptuosa passeava a mão sobre as coxas do rapaz, que olhava enternecido nos olhos da sua acompanhante. Luíza - um peito que afava, um coração fragmentado – exorcizou-se do amor... Sobem os créditos, acaba o filme. O cinema é esvaziado, mas na primeira fila, oculta entre as sombras chora silenciosamente uma Luíza desesperançosa, lagrimas de mais uma menina tímida dos olhos cor de mel.

sábado, 23 de outubro de 2010

V de ...



Vingança!


          Em nome dos amores que não vingaram
E das lembranças esquecidas

Vingança!
Em nome das asas quebradas
E histórias sofridas

Sim, vingança!
A quem desistiu de lutar
E condenou duas vidas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Impertinências



Já não sinto soar o timbre da voz,
E os devaneios que turvam as últimas memórias
Levaram os sonhos para outro endereço.
Não há mais promessas, dúvidas ou medos.
E nada é o que parece ser.
Eu sempre soube que esse dia chegaria,
Sei também que prometi tentar,
Prometi não chorar,
Mas desde que os sonhos se foram
Nada do que vivo faz sentido.
Você prometeu, lembra?
Disse que estaria comigo,
Que seria meu ponto de equilíbrio.
Era amor nos seus olhos, não?
Então, agora, eu te desafio;
A me encarar outra vez;
A olhar nos meus olhos
E dizer que não me ama.
É, isso está me matando por dentro
Mas eu, sim eu, sinto sua falta
E não sei lidar com isso.
Os olhos imponentes se perderam no silêncio,
As lágrimas secaram,
Você esqueceu.
Diga que estou errada,
Diga que isso é uma grande mentira.
E só depois me faça esquecer.
Apague as luzes
E me deixe sonhar de novo.
Só a sua voz rouca pode quebrar o silêncio.
Fique mais um pouco,
Espere eu adormecer.
E aí, então, se afaste
E me deixe só;
Mas não suma, não durma, não morra em mim.
Acorde, o sol já nasceu!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Boteco




E o prato do dia é: Decepção;
Um pouco amarga, é verdade,
Mas é uma boa pedida
Se regada a doses de maldade.
Talvez os ébrios prefiram a tontura,
Os misantropos a solidão promocional.
E ainda que haja guerra entre os incultos,
Hoje, Decepção é meu prato principal.
Acompanhada por porções de falsidade,
A insignificância compensa a estupidez.
E por mais fartos que sejam os pedaços de sarcasmo,
Nada me faz pedir outra vez.
De sobremesa, uma tigela de ironia
E um copo quase quente de frieza.
Ponha tudo na conta,
Inclusive as doces balas de ensejo.
E quanto a gorjeta,
Terá sorte se conseguir trocar
[essas moedas de desprezo.